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sábado, 30 de janeiro de 2016

3 anos em Shenzhen. Reflexões. 4 anos de China.



Já lá vão mais de 3 anos em Shenzhen, e não assinalei o aniversário como tinha feito anteriormente. Aliás, não tenho utilizado o blog de todo há quase um ano. A razão para tal é muito simples e maçadora: falta de tempo, e paciência.

O meu trabalho implica estar sentado à frente de um computador o dia inteiro a escrever ou a ler, coisas. E a morrer lentamente por dentro. Por isso, quando finalmente chego a casa ao fim do dia, evito ligar o meu computador e geralmente não me apetece nada escrever ou fazer seja o que for que requeira qualquer esforço por parte do meu cérebro.

Ainda assim, cá está. 3 anos em Shenzhen assinalados em Outubro passado (já 4 anos de China se considerar o tempo que passei em Tianjin em 2008/09). Coisas que aconteceram...mudei de casa mais uma vez (Shenzhen é actualmente a cidade chinesa com o mais caro mercado de imobiliário do país e um dos mais acelerados do Mundo! Está a tornar-se cada vez mais complicado viver num local confortável a bom preço. Os tempos do “na China é tudo mais barato” já lá vão, há muito...) e mudei de trabalho também. Não vou falar do trabalho, porque não interessa nada. Não é mau, mas no meu entender não é mais que uma forçada necessidade para poder sobreviver e financiar as minhas atividades e gostos pessoais.

Prefiro falar do que me tem acontecido a nível de identidade, psicologicamente. Será, julgo eu, por viver tão longe de Portugal e por não visitar o ocidente com muita frequência, que me sinto cada vez mais estrangeiro de Portugal. Não me sinto menos português, mas a realidade portuguesa (e Europeia por tabela) sombra-me aceleradamente mais estranha e estrangeira do que eu alguma vez poderia ter previsto, após apenas estes curtos anos na China.

Leio noticias de Portugal todos os dias na internet e comunico em português com alguma frequência. Mas sinto-me cada vez mais afastado (éloignée) de Portugal, a todos os níveis. Reajo com peculiar estranheza a muito do que leio sobre a atualidade portuguesa e, para meu muito introspetivo espanto, dou por mim muitas vezes a pensar em Portugal e nos portugueses na terceira pessoa do plural...”eles”. Tenho pensado imenso sobre esta questão da identidade e de como me estará a moldar para o futuro. Estou convencido que caso estivesse emigrado num qualquer país Europeu a situação não seria a mesma. Trata-se realmente do contexto social e geográfico em que vivo (e do meu estilo de vida também e as pessoas com quem interajo diariamente) que acelera este distanciamento cultural e me faz sentir cada vez mais “estrangeiro de Portugal” num tão curto espaço de tempo. É a melhor expressão que encontro para descrever o sentimento.

Não se trata de um distanciamento doloroso, perceba-se! É sobretudo pautado pela indiferença e um sentimento de inevitabilidade.

Num pensar mais filosófico, faz-me questionar a actual intrínseca necessidade de nacionalidades para todos nós, como Humanos. Sou português sim, mas e então? Que significa isso para mim caso eu nunca mais volte a habitar Portugal na minha vida, hipoteticamente? E, num cenário mais extraordinário (mas que me parece realista e absolutamente inevitável), que significará a nacionalidade de qualquer um de nós no dia em que começarmos a contactar com civilizações extraterrestres e quando a raça humana colonizar outros locais do Universo? Continuaremos a identificar-nos de acordo com o país onde nascemos? Não tanto, prevejo. Assim sendo, porque é tão importante a nacionalidade para nós, agora? Fronteiras e a separação de territórios (e seus respectivos recursos) são e sempre foram a causa de guerra entre humanos. Será então razoável pensar que a existência de nacionalidades e fronteiras (criação artificial humana) são, resumidamente, meios de violência? Quando digo “sou português”, estarei a ser violento? Quando alguém me pergunta de onde sou, estará essa pessoa a acentuar e a perpetuar um ciclo e hábito de violência entre Humanos numa forma muito instintiva e protocolar de tentar perceber de que lado da barricada nos colocamos? Nacionalismo não será sempre uma forma de separatismo? E para que serve, senão para criar distancia e conflito? “Sou português, e tu és chinês”. Cria-se aqui um fosso, um espaço que se saboreia ou se tenta resolver. Nunca seremos iguais, é o resultado.

Sei que não é uma reflexão original. Muito se escreve e escreveu sobre sobre a repartida violência do globalismo que habitamos. A questão original para mim surge no entanto, na perspectiva. No ganhar de perspectiva e no sentir na pele o impacto que se cria, mentalmente. É uma reflexão pessoal.

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