Deixem o vosso e-mail para receber notificações de novos artigos...e ganhar brindes

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Diferenças de Percepção ~ Insularismo cultural e sociocentrismos chineses


Este ano no dia 4 de Abril é feriado na China. É dia de as pessoas irem limpar e cuidar das sepulturas dos seus mortos, Qingmin Festival (sim, coincide com a Páscoa e tem uma temática mais ou menos semelhante relacionada com a morte. Tirem daí as vossas próprias conclusões). Calha a um Sabádo, mas maior parte das pessoas terão também a Segunda-Feira de folga.

Tal como acontece com quase todos os eventos e feriados culturais que acontecem na China, este mais uma vez expõe um comportamento "curioso" e peculiar dos chineses quando confrontam estrangeiros (ocidentais) em relação aos mesmos. O que acontece, é que sempre que existe algum tipo de feriado ou festival, uma grande porção dos chineses assumem que os estrangeiros sabem pouco ou absolutamente nada sobre os ditos, independentemente do tempo que já terão passado na China: "You know, this weekend it's Tomb Sweeping Holiday. Do you know?", diz-me um colega de trabalho no escritório esta manha. "Sim, eu sei. Eu trabalho aqui. Vou ter fim de semana prolongado à conta disso. Óbvio que sei.", penso eu cá para mim - tentando não me sentir muito insultado - mas na realidade apenas respondendo "Yes, I know.".
De forma semelhante, o mesmo acontece aquando do Ano Novo Chinês ou outras datas de relevo. O estrangeiro é constantemente "interrogado" pelos locais sobre se tem consciência do que está prestes a acontecer à sua volta.


Isto poderá ser interpretado como um acto de simpatia, solidariedade e procura de integração por parte dos chineses. Poderá, ao primeiro contacto. Na realidade, e a meu ver, é sobretudo uma manifestação de ignorância e falta de consciência e percepção global, em perspectiva cultural. Ou seja, o que o comum dos chineses está a realmente a dizer e perguntar, é algo do tipo "You are a foreigner. There is no way you can be aware of our costumes and traditions, cause being a foreigner, you will never understand China and its ways. So, let me check if you have any idea of what is going on, and let me inform you about it."

A razão porque eu interpreto a situação desta forma (que poderá parecer algo...violenta talvez, para quem não está familiarizado com a realidade chinesa), é porque nunca, até hoje (nem uma única vez que me possa recordar), ouvi um chinês a explicar-me um costume ou tradição chinesa comparando-a com algo semelhante que aconteça noutro lugar. Comparação é, habitualmente, uma forma natural e simples de explicar algo: compara-se uma situação nova e/ou complexa com algo que é familiar ao sujeito a quem se está a explicar. Certo? Na China, como disse, isso raramente acontece. Porque na perspectiva geral do chinês, tudo o que acontece na China é intrinsecamente e vincadamente de cunho chinês, sem possível comparação ou reprodução digna noutros contextos.


Em Portugal, quantas vezes nos acontece sentir-mos necessidade de explicar a turistas e/ou imigrantes que "vem aí o Natal. Sabes?", ou a Páscoa, ou o Carnaval, ou o São João, ou seja o que for? São feriados e festividades, e estando as pessoas no nosso país, geralmente assumimos que elas estão mais ou menos "preparadas" e conscientes da sua existência, ainda que não necessariamente familiarizados com as minúcias mais tradicionais associadas a tais, naturalmente. Isto acontece porque nós como Portugueses (escrevo aqui como Português, em português, mas o caso adequa-se a muitas outras realidades), temos consciência que as "outras gentes" também têm os seus dias e as suas tradições mais ou menos comparáveis. Não partimos do principio que os nossos feriados serão algo de extraordinário e dificil de compreender para os "outros".


O mesmo não acontece na China. Na China nunca existe integração de um estrangeiro (etnicamente e explicitamente não chinês). Não porque o estrangeiro não esteja integrado. Mas porque o chinês vai assumir e criar as mesmas expectativas para um estrangeiro que está na China há 6 meses, assim como para aquele que está há 20 anos. A China nunca "acredita" que tu, como estrangeiro, possas perceber a China, e te integrares. Se a China tem ou não razão nesse caso, já é ponto de partida para outra reflexão...

O que eu quero aqui sublinhar, é o profundo e por vezes destrutivo sociocentrismo que está impregnado na mentalidade chinesa, em geral. É fruto de ignorância e falta de percepção e perspectiva, e afecta quase todas as rotineiras interacções sociais. É, no dia a dia chinês, algo que coloca à prova a tolerância e paciência do estrangeiro que por cá vive. É algo que irá transformar o individuo, e torna-lo numa pessoa mais tolerante, paciente e calma, ou que o poderá tornar numa pessoa intolerante, agressiva e rabugenta. É algo para o qual os "livros" não nos preparam, mas que se torna muito evidente quando aqui estamos.

PS: Compreenda-se que quando me refiro à China e chineses, tudo se trata de uma generalização. Uma generalização que me parece ser representativa da generalidade, mas ainda assim uma generalização.

Sem comentários: