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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Na China - Um Ano de Vida

Originalmente escrevi isto no inicio de Outubro. Não publiquei n'altura porque me pareceu demasiado pessoal e lamechas. Deixei-o engavetado em stand-by. Hoje por acaso reli, e nem me parece assim tão lamechas. Parece-me até um testemunho que peca por ser demasiado seco, impessoal e parco em informação prática. Ao meu gosto portanto. Decidi publicar. Segue.



Não tenho o hábito de falar sobre mim aqui no blog por uma razão muito simples: sou acanhado. Mas abro agora uma excepção para deixar o meu testemunho por escrito do balanço que tem sido a minha experiência de vida no ultimo ano. Outubro marca o primeiro aniversário da minha incursão emigrante na China. 12 meses que passaram com intensa rapidez, mas que se desenvolveram com surpreendente tranquilidade e harmonia.

Se existe alguma mensagem que gosto de transmitir aos outros com a minha experiência, é que emigrar para o outro lado do Mundo, hoje em dia, não é algo de extraordinário ou particularmente especial. Não é precisa grande coragem nem ser-se muito destemido. Não é difícil nem nenhum bicho de sete cabeças. É apenas preciso querer, e fazer! E a recompensa, essa sim pode ser extraordinária e riquíssima.
Não me identifico com aqueles discursos tipicamente portugueses da saudade, do sacrifício, do romantismo depressivo, do ultra-sensacionalismo de emoções de "quem vai para fora e deixa os seus próximos tão longe" e o quanto isso custa e todo esse tipo de sopas de caldo verde sem sal e mal temperadas. Esteja onde estiver no Mundo (cuja circum-navegação pode ser feita por qualquer pessoa em apenas alguns dias), estou sempre próximo de quem me é querido, e a vida segue com naturalidade.

Em 12 meses atingi os meus objectivos. Nunca tinha delineado um plano com objectivos nem nada de muito especifico, mas se entendermos necessidades de sobrevivência e conforto básicos como objectivos, então o meu primeiro ano foi um sucesso absoluto. Trabalho, casa (arrendada), estatuto legal como trabalhador residente no país e independência económica.

A parte mais impressionante deste meu resumido currículo de vida na China é a obtenção do visto de trabalho (Z Visa) e autorização de residência, perceba-se. Não foi muito complicado para mim obter estes documentos, porque tive uma boa plataforma de apoio tanto a nível da companhia para que trabalho, como por parte da minha família. Mas trabalhar legalmente na China é de facto um bicho de sete cabeças para muita gente, e não deve ser menosprezado o feito de conseguir ultrapassar esse obstáculo.

Quanto ao resto, depende de cada um. Pessoalmente cultivo uma atitude de calma ponderação e contemplação para actuar e decidir o que fazer a seguir, misturada com uma postura de acção repentina e impulsiva quando calha. Não faço planos.
É uma atitude que poderá ser confundida com preguiça, procrastinação e irresponsabilidade (como algumas pessoas por vezes não hesitam em me dizer), mas acredito genuinamente que é sensato não só ponderar sobre as opções que temos e que podemos influenciar directamente, assim como observar/esperar pelo que pode acontecer à nossa volta ao acaso. Algures ali no meio, é onde as minhas decisões costumam acontecer e se concretizam, sem stresses de preferência. E desafio qualquer pessoa que se diz muito organizada e que planeia exaustivamente o seu futuro a mostrar-me o seu plano de há um ano atrás e como tudo correu tal como previa até agora. Basicamente, acredito que fazer planos acaba por ser irrealista, algo arrogante, inconsequente, imaturo até, e, em certa medida, irresponsável.

Todo este ultimo parágrafo para explicar aquela que é a minha resposta para quase todas as ocasiões em que alguém me pergunta algo como "então como é que isso aconteceu? Como chegaste aí?": Calhou. Como consegui o meu emprego? Calhou. Fui a uma série de entrevistas, e calhou este. Como consegui arrendar o sitio onde vivo? Calhou. Percorri alguns anúncios online, fui visitar, e escolhi um.

Como e porque decidi vir para a China? Bem, não diria que calhou, mas aconteceu tudo muito depressa. No fundo, calhou: surgiu-me a ideia por volta da hora de almoço de um dia qualquer (lembro-me por acaso), pensei no assunto, e decidi que o iria fazer. A partir daí fiz uma série de telefonemas e contactos para assegurar umas certas bases futuras, "arrumei a casa" (comecei a tratar de tudo para dispensar a casa em que vivia e todos os bens que possuía e já não queria), e tratei de arranjar o bilhete. Entre o tempo da decisão e da viagem, terá passado cerca de um mês. A mudança apenas não foi mais rápida porque pelo meio ainda me surgiu um trabalho de 15 dias que me garantiu de forma muito conveniente umas centenas de euros extra para ajudar. Ou seja, calhou e caiu do céu esse ultimo impulso financeiro que tanto jeito me deu. Finito esse tal trabalho, já tinha a viagem marcada e rumei em direcção ao nascer do Sol. Nem sequer levava um visto no meu passaporte. Tinha me informado que o poderia obter em Hong-Kong (onde aterrei) num prazo de horas, e portanto aí chegado tratei do visto para no dia seguinte rumar ao meu destino final: Shenzhen, já na China continental. Fácil e sem complicações.

Ou seja, não existe uma história ou mensagem inspiradora e dramática por trás da minha mudança. Não é um acto de impressionante coragem carregado de mágoas e sacrifícios. É apenas, tal como tantas outras coisas na vida, uma decisão, seguida da acção que a concretizou. E esta é essencialmente a lei que dita a lógica da vida.
Se alguma coisa, existe no meio disto tudo uma profunda desilusão e sentimento de revolta que precipitou a minha decisão. Estou a falar do estado politico que hoje em dia se vive em Portugal e na Europa em geral. Não vou agora entrar aqui em detalhes sobre isso (quem me conhece sabe qual é a minha perspectiva), mas de facto, e mais que um emigrante, considero-me um exilado politico (dito sem qualquer tipo de sentido sarcástico ou humorístico na afirmação). Não me considerando capaz de lutar eficazmente contra o terror social que se vive em Portugal, senti-me forçado a fugir de um sistema que estava implacavelmente a colocar a minha vida e perspectivas futuras em risco. E conhecendo-me como ser mortal sem capacidade de repetir a minha existência na Terra após a sua incontornável conclusão, considerei apenas lógico ter de rumar para um lugar onde melhor pudesse explorar e expressar a minha oportunidade de existir. Desperdícios não é comigo, muito menos quando se trata da minha vida.


Pessoalmente adoro ler testemunhos de "pessoas que se aventuram pela vida". Os portuguese por lá, os estrangeiros por cá, aqueles que andam de lá para cá sem espaço definido. No entanto, custa-me escrever sobre as minhas experiencias porque acabo por cair num esquema de idolatração pessoal e arrogancia disfarçada (I'm too coll to feel cool) que me magoam por não ser o reflexo que quero passar de mim para os outros. Ainda assim, se surgir interesse, estou disposto a tentar mais e melhor no futuro. 

PS: A China é um país que acolhe bem. Deveria ter começado por isto talvez. Com a mentalidade e disposição adequadas, vive-se muito bem neste país. Em geral recomendo fortemente que se visite e/ou viva neste país, mas ao mesmo tempo custa-me muito recomendar a alguém em particular. É daquelas coisas...não é para todos, mas recomenda-se a toda a gente.

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