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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

The Walking Dead (videojogo)



Diálogos redundantes, narrativa previsível, clichés típicos do género de zombies e acção intelectualmente pouco desafiante acabam por comprometer as ambiciosas intenções de The Walking Dead, o jogo.

Estruturalmente está tudo bem feito e pensado, mas dei por mim demasiadas vezes a cantarolar juntamente com os personagens as constantes lenga-lengas que estes declamavam para explicar o que estava a acontecer, o que tinha acontecido, o que teria de acontecer, e como o iriam fazer acontecer (os tais diálogos redundantes e penosos). Quase nada na escrita do jogo é subtil ou requer qualquer tipo de suor mental por parte do utilizador, que vai vendo o comboio marchando o seu caminho previsível e pouco entusiasmante. Muitas são as ocasiões em que nos é dado o poder de escolha nas conversas e acções das personagens, e embora as consequências sejam muitas vezes drásticas (para uma ou outra direcção), a verdade é que quase sempre se consegue perceber de antemão exactamente aquilo que os programadores têm preparado consoante as nossas diferentes escolhas. Não apenas temos constantemente o pau com a cenoura pendurada à frente do nosso nariz, como de vez em quando nos é oferecida a escolha de trocar por uma goma, um bife ou um salgado. É de louvar esta aparente liberdade de acção, mas na prática o processo digestivo consequente da nossa opção é sempre bastante claro: se escolhes a goma vais ter dores de dentes,  se comes o bife terás dores de barriga, e se fores pelo salgado, ficarás com sede.

É verdade que este The Walking Dead tem alguns momentos que me deixaram genuinamente chocado e me apanharam completamente desprevenido. Mas esses raros momentos ( talvez três ou quatro espalhados pelos cinco episódios) apenas ajudam a relembrar o quanto tudo o resto é previsível e...chato.
De resto, o jogo aposta demasiado na carta da emoção! Como se a relação super emocional entre os dois protagonistas (o adulto Lee, figura paternal adoptiva da infante Clementine) fosse suficiente para dar motor a todo o jogo, obscurecendo pelo caminho muitas das falhas de algumas das personagens secundárias que conseguem ser, muitas das vezes, francamente caricaturais e bidimensionais. The Walking Dead tenta à força toda empurrar este relacionamento afectivo (de Lee e Clementine) para cima do jogador a toda a hora. E o objectivo é desde muito cedo evidente: fazer-nos sofrer com o desenlace inevitavelmente trágico de um dos dois no clímax final do jogo. Isto não é um spoiler, é apenas a constatação mais óbvia que se pode fazer depois da primeira meia hora de jogo. E...enfim, não querendo spoilar, mas tal como disse, o jogo não é particularmente inteligente ou imprevisível...

Os clichés associados ao género de obras zombies também marcam presença, e irritam. Irritam não por surgirem de forma propositadamente referencial, mas sim de forma séria e com clara intenção de peso e impacto narrativo. Não funcionam. São apenas clichés saturantes. E mais não digo para não spoilar.

Por tudo o que aqui escrevi parece que não gostei de The Walking Dead. Não é verdade! Eu gostei, e estou ansiosamente à espera da segunda temporada (já confirmada). Mas...sinto-me frustrado com todo o potencial desperdiçado, mais uma vez. Aquele potencial que os videojogos que tentam ser mais "sérios" tão teimosamente teimam em desperdiçar. Tentam ser muito "inteligentes e adultos" em certos aspectos, mas depois noutros tanto ou mais cruciais, tratam o jogador como um mero peão, burro intelectualmente retardado, a precisar que lhe seja dada toda a papinha directamente na boca para que não perca o fio à meada. Irrita-me. E irrita-me também a questão da "emoção" e como o todo é tão forçado. 

O que melhor posso dizer para explicar a minha frustação face a este The Walking Dead, é que à medida que o ia jogando, por muitas vezes pensei, "Pfff, Shenmue fez isto tudo e muito mais, com muitos melhores resultados". Bem sei que Shenmue nem sequer se insere no mesmo género de Walking Dead (jogo de aventura open world vs aventura point'n'click), mas quem jogou Shenmue vai perceber perfeitamente a minha frustração. É apenas um exemplo, mas ainda assim pertinente, parece-me. Shenmue 2 já data de 2001. É mau sinal quando o aclamado Game of the Year de 2012 não consegue sacar escrita, narrativa, ou emoção melhor que um titulo da Sega de 2001. Sobretudo quando as grandes mais valias de The Walking Dead estão alegadamente nessas mesmas categorias.

Repetindo: gostei! Completei esta primeira season interactiva de The Walking Dead com prazer e espero pela segunda. Mas toda a experiência pecou por nunca ter sido (para mim) particularmente divertida, interessante ou sequer entusiasmante. Ao longo de todas as horas de jogo pairou sempre um sentimento de marasmo e inconsequência intelectual e emocional que me deixaram frustrado. Mas ainda assim, gostei e acho que a base está sólida e bem construída, e o potencial ainda existe para ser melhor explorado no futuro.
Interpretem o meu parecer como quiserem, por mais contraditório que possa soar, e joguem se tiverem oportunidade.
Para mim, o melhor momento do jogo.

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