Deixem o vosso e-mail para receber notificações de novos artigos...e ganhar brindes

sábado, 8 de setembro de 2012

Savages



A filmografia de Oliver Stone é um pouco assim: inconsistente. Para cada bom filme que faz, tem que realizar pelo menos meia dúzia de fitas mais ou menos inconsequentes e mal temperadas. Eu não sou o seu maior fã, e clássico absoluto só lhe reconheço um, Platoon.

Savages acaba por ser um reflexo da carreira de Oliver Stone como realizador, mas também do seu estilo próprio, a que eu chamo "misturar muitos estilos na mesma salada esquecendo-se no final do essencial: azeite, vinagre e sal". O tomate e a mozzarella estão sempre lá para dar aqueles salpicos de cor e textura, mas quando se trinca, sabe a pouco. E acaba aqui a minha analogia gastronómica.

O filme tem picos de brilhantismo! Algumas cenas levam a acreditar que se está a ver algo muito bom! Mas depois o ritmo volta a cair para o medíocre e indeciso, e a ilusão desvanece. Para esclarecer, gostei de Savages! Diverti-me e acho que é um trabalho original, que lida de forma muito criativa e inesperada com a muito actual questão da guerra à droga nos Estados Unidos e México. Consegue ser muito ligeiro, jovem e cómico, ao mesmo tempo que nos oferece algum do melhor gore realista dos últimos tempos, e apresenta cenas de tremenda brutalidade gráfica e psicológica - esta também é uma imagem de marca de Oliver Stone, que quanto a mim ele nunca conseguiu calibrar na perfeição até hoje. Cereja em cima do bolo, aqui tudo tem um sabor bastante old-school, com o CGI a não interferir nas cenas de maior violência e acção, o que é óptimo!

O maior triunfo, e pecado, de Savages serão porventura as suas personagens e interpretações das mesmas. Os vilões do dia são ultra-carismáticos, revestidos em várias camadas de complexidade e interesse que lhes dão uma personalidade e carácter credíveis e atraentes (Oliver Stone sempre teve também mais talento para criar bons vilões do que heróis bonzinhos). Salma Hayek e Benicio Del Toro são a alma e cara deste filme! Os dois mauzões enchem o ecrã sempre que aparecem, e justificam por si só que se veja Savages. Sobretudo Salma Hayek, no seu papel de "Madrinha" de um cartel de droga, grande e implacável matriarca de todos os "cães" que a rodeiam. Para mim, talvez o melhor papel da sua carreira! Benicio Del Toro também está muito bem, mas esse por vezes transborda demasiado para o caricatural e para o excessivamente cómico, quase servindo de ocasional "comic relief".
Pela negativa, estão as personagens principais. O grande problema de Savages, que é mesmo o casting. Os dois anti-heróis são tão interessantes como uma húmida corrente de ar às 7 da tarde em Liverpool. Além de maus actores, evidenciam o grande problema de equilíbrio que atormenta Savages, com todos os actores "A-List" mais famosos (John Travolta incluído) a fazerem parte da equipa dos maus da fita, enquanto que os bons da fita são todos seres transparentes e deslocados. Blake Lively, coitada, que eu até acho alguma piada, infelizmente não consegue fazer outra coisa que não o mesmo papel de sempre. Surge aqui como a babe de serviço, mas até nisso perde com Salma Hayek (naturalmente!).

Não desgostei de Savages, até gostei. Mas fiquei com aquela areia na boca a engasgar-me e a fazer-me estalar os dentes, consequência habitual de quase todos os filmes de Oliver Stone. Vale pelo que vale, pela sua violência à antiga e por algumas das personagens, mas nunca consegue ser um filme consistente e seguro de si. E quando assim é, o espectador também não se sente seguro do que está a ver, e se está realmente a gostar ou não. É uma experiência essencialmente desconfortável, pelos piores motivos. Mas hey, gostei. Sim.

Sem comentários: