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domingo, 12 de agosto de 2012

Portal 2 ~ No country for old machines


Período estranho e desconfortável para se ser um jogador, estamos nesta altura com as consolas actuais a contarem já seis/sete anos de idade, e ainda com pelo menos mais um de duração em perspectiva. Para mim, que faço parte daquele grupinho de (ótarios) early adopters, a fatiga tecnológica faz-se notar de forma muito acentuada. Sofrivelmente, diria mesmo.

É também um período em que assisto a um fenómeno de desperdício e consumo (ou desperdício consumista) frustrante onde o catálogo de jogos por jogar em atraso se acumula e cresce sem fim à vista, e onde a vontade para os jogar é cada vez mais reduzida. Instala-se aquela sensação do "jogar dá trabalho, e estou a jogar só para não me sentir mal comigo mesmo". O factor entretenimento quase que desaparece da equação.

Ainda assim, e porque é verão (época em que normalmente devoro mais jogos durante o ano), lá me tenho esforçado para limpar alguns dos títulos do tal catálogo em atraso, ainda que deixando alguns perpetuamente ao abandono, autênticos "ocupas" de prateleira, que ficam lá para fazer cor e dar textura à colecção.

Portal 2 foi o principal catalisador desta minha demanda. Sequela daquele que é, provavelmente, o mais marcante, importante, e influente jogo desta geração, Portal 2 prolonga maravilhosamente bem o estatuto nobre do (agora) franchise. Ser-se "gamer" (detesto este termo) e não jogar Portal, é mais ou menos o equivalente a gostar-se de cinema e não ter visto o 2001: Odisseia no Espaço. Referência absoluta da sua respectiva área artística, é aquela experiência que não deixa grande vontade para repetições, mas que marca para todo o sempre e cria o seu próprio paradigma e o seu único e notório campo de reflexão e análise. Enquanto se vê/joga, queremos sobretudo terminar e passar à frente. Mas quando finalmente concluído, fica um espaço preenchido dentro de nós em que mais nenhuma obra irá tocar.

Portal 2 peca por ser demasiado longo. Quase ao ponto da saturação! O jogo não perde o seu ritmo, nem deixa de nos surpreender, mas atinge várias etapas em que o desejo pelo alcance do desenlace final se torna  quase penoso. Seguimos em frente de qualquer forma, e por vezes até paramos para pensar "Hey, isto (Portal e Portal2) é de longe o videojogo com a melhor e mais inteligente escrita de sempre! Este jogo não me dá vontade de entrar pela Assembleia da Républica com uma M60 e chacinar todos os seus ocupantes, mas antes de entrar por ali a dentro de Proust em riste e declamar algum juízo naquela gente!". Portal 2 é isto. É a intelectualização do videojogo em forma de puzzler cómico, dramático e irreverente. A Valve caga completamente para as convenções actuais da indústria (i.e. público Call of Duty) e cria algo de verdadeiramente original e inovador, na sua execução e na arte da narrativa em particular. Extraordinariamente (ou não), no meio disto tudo ainda consegue atrair uma boa porção do grande público de massas da indústria, tornando-se num sucesso comercial.

Quase tudo é executado sem espinhas, mas nota-se-lhe a idade. Se a alma está 20 anos à frente de tudo o resto, já o esqueleto é velho e está cheio de artroses! Convém lembrar que o Source Engine já canta desde 2004. E embora possam dizer que levou muitos melhoramentos e actualizações desde então, a verdade é que na prática estamos a lidar com o mesmo motor que vimos em Half-Life 2, ainda naquele tempo em que as consolas desta geração nem sequer existiam, e o Halo 2 estava a começar aquela moda do "Maior lançamento de entretenimento de sempre!! OMFG 300 milhões nas primeiras 24 horas!".
Podem dizer que os gráficos não são o mais importante (e não o são, na minha opinião. É a soma das partes que conta), mas das duas uma: ou ficamos a contemplar o quão bons são, ou ficamos a estranhar se estiverem datados. Em Portal 2 já se estranha, bastante. E não é aquele estranhar que depois se entranha, não. É mesmo aquele estranhar em que nos últimos níveis do jogo ainda paramos ao lado de uma conduta de ar (no jogo! Perceba-se), fazemos zoom na sua textura e temos súbitos flashbacks das 128 bits.

Falhas e pecados que o sejam, no final não interessam nada. Literalmente, no final. Não atinge aquele brilhantismo do primeiro Portal, mas esta sequela conseguiu terminar de forma bonita e muito bem conseguida. Terminei Portal 2 a sorrir. Um sorriso completamente natural que o meu corpo interpretou e activou da mesma forma que os meus olhos se fecham se me apontarem uma lanterna directamente contra a cara. Quando se reage de forma tão natural e visceral, trata-se de emoção! E quando uma criação de outrem provoca tamanha emoção, é arte! Portal 2 é arte, mas é muito mais do que isso: é um videojogo, e uma representação quasi total do potencial deste formato interactivo. Percorrer o seu caminho é um imperativo cultural - ninguém gosta de ficar fora de uma conversa.

PS: E o co-op? Fantástico! Óptimo para testar os nossos nervos e capacidade de trabalho em equipa. Também muito divertido, e bem escrito.

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