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terça-feira, 13 de março de 2012

Uncharted: Golden Abyss



Uma fraude. É esta a melhor maneira que encontro para descrever Uncharted: Golden Abyss para a PS Vita. Autêntico lobo disfarçado de ovelha (ou rato camuflado de tigre), o que temos aqui não é um Uncharted, mas sim um banal e medíocre jogo de plataformas e acção (nesta ordem!) que veste a pele e o nome da muito prestigiada série da Naughty Dog para se fazer passar, essencialmente, por um bom jogo. Que não o é.

Mal se começa o jogo, estranha-se a decepção gráfica que não corresponde ao hype. O aliasing é atroz e desorientador no período inicial, e embora logo aí se consiga perceber que este é de facto um dos mais impressionantes jogos actualmente a correr numa portátil (tecnicamente falando), torna-se também evidente que um Lumines ou sobretudo a versão de Marvel vs Capcom 3 para a Vita impressionam muito mais visualmente no pequeno grande ecrã da consola. É preciso atingir o último terço de Uncharted para que este nos encha os olhos a valer e se torne genuinamente impressionante: seria de esperar que fossem as alargadas vistas exteriores a colocar em evidência a beleza gráfica do jogo, mas afinal são os enormes cenários interiores que finalmente nos fazem comparar directamente o que temos entre as mãos e aquilo que costumamos ver na nossa HDTV com a consola doméstica ligada. Texturas húmidas (das cavernas) e de água em particular forçaram-me a ficar parado a contemplar e analisar a perícia técnica do que estava a ver. Verdadeiramente impressionante! E por esta altura já o excessivo aliasing se tinha fundido com a experiência, fazendo esquecer que, no geral, Uncharted não é assim tão "poderoso" quanto isso. Mas aquelas texturas rochosas...muitos parabéns!

Encostam-se os gráficos e fala-se do jogo em si. Uma experiência sofrível, inesperadamente aborrecida e frequentemente insultuosa. A história é uma viscosa mescla juvenil de clichés habitada por personagens abusivamente caricaturais e desinteressantes. O jogo de sedução que acompanha o casal de protagonistas em particular torna-se mesmo embaraçoso. Basicamente temos um Nathan Drake constantemente a implicar de forma constrangedora com a sua "parceira" feminina por esta se recusar a pegar numa pistola para se defender. Finalmente lá para o fim a rapariga cede à pressão e agarra no falo...perdão, numa arma, e a relação dos dois culmina com uma barragem de projecções balísticas para se salvarem. Innuendo much? 
A acção e narrativa desenrolam-se por um binóculo de longo alcance, com cada twist, cada traição, cada confronto e desenvolvimento a ser penosamente avistado a milhas de distância. O percurso é repetitivo, pautando entre muitas (demasiadas) secções de plataformas que não encantam nem desencantam e tiroteios contra batalhões de centenas de clones uns iguais aos seguintes. Salva-se a eficácia das mecânicas core de jogo para disfarçar e esconder uma base arcaica, desinspirada e derivativa por defeito.
É isso aliás que torna Golden Abyss tolerável ao ponto de se insistir até à sua conclusão: a jogabilidade básica, que apesar de molenga, é ainda assim eficaz e minimamente divertida, apesar de tudo.


Todos os lançamentos de uma nova consola vêm acompanhados de um título assim. Aquele jogo que se esperava ser o killer app da consola, mas que afinal não é por pouco, e toda a gente finge que é mesmo. Aquele título que toda a critica especializada assinala como sendo muito bom, mas apontando-lhe a custo aquela ou a outra falha com algum receio de retaliação dos fãs e do público. Aquele título que, dado o contexto e as expectativas que acompanham o seu lançamento, torna demasiado incómodo (trabalhosa) e inconveniente o devido assalto critico que merecia. Leva por isso notas muito positivas de toda a gente, ainda que com medroso asterisco. Anos mais tarde, quando surgir a sequela ou em período de saudável maturidade do ciclo de vida da consola, surgirão os inevitáveis bitaites retrospectivos com os previsíveis chavões do costume que envolvem algo como "...depois da desilusão que foi Uncharted..." ou "...não tendo preenchido as expectativas dos fãs...", tudo isto fingindo que ninguém se lembra do quão aclamado foi o jogo aquando do seu lançamento...

Quem acompanha a indústria dos videojogos, e o seu jornalismo associado em particular, saberá perfeitamente do que estou a falar, e reconhecerá vários exemplos representativos sem sequer ser preciso estar aqui a listá-los...

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