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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

The Ward, e um Ensaio sobre a Lândia de Porto e Gaia


O objectivo era passar uma refrescante sessão de presumível gore a potes e terror japonês com o filme de culto de 2001, Suicide Club. A realidade, infelizmente, acabou por ser outra. Sou um gajo que age por impulso, e por isso comprar bilhetes com muita antecedência para um festival de cinema (neste caso o Motelx em Lisboa) é algo que não entra no meu modos operandi. Sai-me o tiro pela culatra, e a sessão para o Suicide Club já estava esgotada, para grande surpresa minha, admito. A alternativa foi ir ver a mais recente obra de John Carpenter, The Ward. Falemos disso...

Poster horrível, com citação hilariante
The Ward é um filme mau. Muito mau!
Já ia a contar com isso, apenas não esperava que fosse tão desavergonhadamente mau. Na pior das hipóteses esperava que fosse uma horita e meia de brainless fun com gajas boas a serem esquartejadas ou algo do género. Mas na verdade o meu cérebro e dignidade é que acabaram por ser alvos de esquartejamento, e a experiência foi demasiado desconfortável e incómoda (não no sentido pretendido por um filme de terror) para ser algo mais que simplesmente má.

The Ward é um filme saidinho de 1996, e que só poderia alguma vez fazer sentido em 1996. E mesmo nessa altura, só por miúdos pré-adolescentes. O que temos aqui não é terror, nem suspense, nem medo, nem horror, e muito menos, gore. Temos sim uma peça pré-fabricada que tem como sustento para os seus "sustos", único e exclusivamente a técnica do "põe o volume no máximo e manda um súbito estrondo sonoro quando aparece o Papão da história!". Ou seja, aqueles sustos que mesmo não sendo assustadores, nos fazem estremecer no nosso lugar, apenas porque o nosso corpo reage automaticamente dessa forma sempre que ouve um enorme barulho inesperado - é uma reacção natural de auto-defesa, que nos prontifica a agir em caso de explosão, alarme sonoro, vuvuzela encostada aos ouvidos, ou filmes de terror manhosos como este The Ward.
E todo o filme é isto: uma sucessão de "sustos do armário" insultuosamente previsíveis que nos magoam e incomodam fisicamente (pelo acompanhamento sonoro), e que, pelo menos a mim, me deram vontade de sair da sala mais cedo.
E a julgar pelas reacções das pessoas no anfiteatro (praticamente cheio), que a certa altura já se riam do que deveriam ser momentos de suspense e terror e suspiravam antes das telegrafadas cenas de "saltar da cadeira", quis-me parecer que eu não era o único que estava a detestar a experiência...

Para além desta manhosisse toda, temos uma cinematografia em geral fraca e desinteressante. Acrescente-se um twist final daqueles que, mais uma vez, apenas poderia surtir algum efeito em 1996, e temos a receita para o que é um filme de terror muito deslocado e desnecessário nos dias que correm.
Até admito que, desconstruindo a história (incluindo o tal twist) e analisando o argumento e acção por partes, a coisa até tinha potencial para ser algo interessante. O potencial está cá...mas infelizmente seria precisa toda uma diferente abordagem e metodologia para o expor como deve ser. Como está, The Ward é um mau filme! Não é o pior filme de sempre, não é péssimo, nem é medíocre...é apenas mau. E John Carpenter, não está entre nós.

MAS!, apesar do filme ser péssimo e eu ter ficado com a impressão que toda a gente na sala estava tão desconfortável quanto eu, isso não impediu o publico de começar a aplaudir desenfreada e compulsivamente quando os créditos finais caíram na tela.
"Fascinante!", pensei. "Mas porque é que as pessoas estão a aplaudir?! Terão afinal gostado?! Não, não posso crer que uma massa tão grande de gente tenha genuinamente gostado de algo tão obviamente mau. Não quero acreditar nisso!".


Comecei a pensar no porquê desta atitude, e cheguei a uma conclusão. Tal como quando um avião cheio de portugueses a bordo aterra, toda a gente começa a bater palmas. Não importa como correu o voo. Pode ter passado por imensa turbulência sem nunca sequer recebermos um aviso que iríamos sentir uns solavancos (avisos esses que surgem sempre depois dos primeiros abanões aliás. Há-de chegar o dia em que o piloto avista correntes de ar do seu cockpit na direcção do avião e pede a uma hospedeira para avisar a tripulação que nos aproximámos de turbulência....), ou pode ter havido uma briga física ou verbal entre dois azeiteiros quaisquer. Uns bebes choraram de certeza, e umas avé-Marias sussurradas por umas velhotas em lugares encostados ao corredor central também não faltaram. A aterragem em si, mais vezes do que poucas, é dada aos trambolhões, porque os nossos pilotos gostam de testar e dar uso às suspensões das aeronaves. Mas, está o avião bem pousado na pista, e começam todos a bater palmas (somos talvez o único povo com este comportamento peculiar. É extraordinário!)


Ora sendo assim, e tal como o publico de The Ward começou a bater palmas no final, eu sou obrigado a concluir que o português bate palmas porque sobreviveu à experiência! Não por ela ter sido particularmente agradável. Os voos são sempre chatos, e este The Ward foi uma experiência atroz. Mas sobrevivemos...e isso, pelos vistos, é razão suficiente para se baterem umas palmas. É este o nível de negativismo e apatia que habita a nossa sociedade...






PS: Era para ter escrito mais sobre o comportamento dos portugueses (daí o titulo deste artigo). Nomeadamente o que leva dezenas de pessoas a esperaram paradas numa enorme fila de espera à porta do cinema para comprar bilhetes quando têm uma fnac mesmo ao lado onde o podem fazer em menos de 5 minutos. Que foi o que eu fiz aliás, quando cheguei ao S. Jorge e vi a entrada a abarrotar de gente à espera. Não só me desloquei à fnac mais próxima (que é mesmo ao lado) para comprar o bilhete, como ainda tive tempo de comer calmamente antes de regressar ao local. Quando regressei ao cinema algumas das pessoas que estavam na fila quando eu lá tinha passado da primeira vez, ainda permaneciam à espera.

O português prefere estar parado à espera, a penar, mas com o reconforto de saber que irá atingir o seu objectivo (por mais demorado que isso possa ser), do que mexer os pés e ir à "aventura" despachar o que tem a fazer. Esta atitude é, para mim, estranha no mínimo, e profundamente irritante por vezes (especificamente quando estamos acompanhados ou a fazer companhia a/de gente assim). Diz muito sobre a mentalidade portuguesa. Muito mesmo! O nosso culturalismo conformista (ou conformismo cultural) que nos impede de progredir e avançar prá frente (redundância necessária!). Em miúdos, o português, ao contrário do que lhe é popularmente reconhecido, não se sabe desenrascar e está muito mal habituado (os jovens em particular, são um flagelo!). Sabe sim fazer remendos, e orgulha-se demasiado disso.

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