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quarta-feira, 2 de março de 2011

Somewhere


Compreendo, e apoio, que tenha ganho o Leão de Ouro em Veneza. 

Depois de tantas criticas e opiniões mistas, entrei na sala de cinema com expectativas muito bem controladas, embora ainda assim elevadas. Afinal de contas, estava prestes a ver o novo filme de Sofia Coppola! Com apenas três longas metragens no currículo, já era há muito uma realizadora favorita para mim (independentemente do sexo), e encaro cada ida ao cinema para ver um dos seus filmes (agora quatro) como um autentico ritual pessoal solitário de total concentração e entrega. 

Somewhere é diferente. Sim, é em muitos aspectos semelhante a Lost in Translation, mas é ao mesmo tempo uma experiência bastante diferente e com uma direcção não tão linear, parece-me.
O tema é a ennui existencial de que o protagonista sofre. E digo "sofre" porque acredito que se trata na verdade de uma patologia transversal a qualquer estrato social e/ou económico que pode atingir qualquer pessoa. Pessoalmente também sofro desse desassossego que tanto inquieta na sua quietude, e foi sobretudo por isso que Somewhere me atingiu de forma tão incisiva e intima. Quem não perceber a problemática representada no filme irá, muito provavelmente (como aconteceu com muitos críticos), julga-lo como uma representação indulgente e pretensiosa da seca que é ser rico e famoso e não encontrar nada de excitante pra fazer. É isso também, mas não tem necessariamente a ver com ser-se rico e famoso.
Seja como for, se o tema é o aborrecimento, já o filme consegue escapar por completo a essa condição. Nunca em momento algum se torna chato! Grande mestria de Sofia, que utilizando tantos planos de longa duração e sem diálogos, consegue construir um filme que cresce, cresce, cresce sem parar até ao seu final. O filme nunca pára, mantém o espectador sempre cativado (estou a falar por mim pelo menos), e foi com um certo deslumbramento que me apercebi, enquanto o via, que mantive um sorriso estampado na minha cara praticamente durante toda a fita. E isso normalmente é sinal que estou a gostar de um filme, e sim, gostei muito de Somewhere. Até do seu final, que tantos odeiam e consideram cliché e irritante. Para mim fez perfeito sentido...é na verdade muito simples, e não tenta finalizar a condição do protagonista. É antes apenas mais uma representação sintomática da sua condição. Como percebo...(I guess! Como interpreto pelo menos. Mas parece-me claro.)

Sofia Coppola mostra também uma faceta técnica e artística que não tinha ainda revelado nos seus anteriores filmes. A já mais ou menos famosa cena de Stephen Dorff com a cara totalmente coberta de gesso será a mais comentada, mas para mim o que mais surpreendeu e me fascinou foram as cenas que acompanham o protagonista no seu Ferrari nas ruas e auto-estradas de Los-Angeles. Com uma câmara acompanhante a filmar a traseira do carro na terceira pessoa, surge um cinema quase á lá Michael Mann, mas com uma vibe completamente diferente, não tanto de show-off e exposição, mas ainda assim com grande teor de estilização e encadernação da personagem. Quanto a mim, espectaculares estas cenas em particular.
E claro, ainda em relação à realizadora, a sua sensibilidade musical continua tão boa como sempre! Isto é bastante subjectivo (quem não gosta das faixas escolhidas não gosta e pronto), mas lá está, como eu só escrevo a minha opinião, devo dizer que adoro sempre as escolhas musicais de Sofia, e que esse é um dos traços característicos que mais me identificam com os seus filmes, e uma das muitas razões para tanto gostar deles.

Falando de Stephen Dorff, é imperativo saudar tanto a sua interpretação, como a de Elle Fanning (não me ofenderia nada um Oscar pra melhor actriz secundária a esta menina). Ambos estão excelentes, criando uma enorme empatia com o publico, apesar de serem "apenas" uns ricos sem mais nada que fazer. Stephen Dorff na sua personagem de Johnny Marco é tão ambíguo e natural que esquecemos por completo quem ele é na realidade.

Finalizando, e caso não o tenha deixado claro, sim gostei muito de Somewhere. Compreendo no entanto que muita gente não goste ou pura e simplesmente não aprecie. Os filmes de Sofia são sempre obras muito subjectivas e de pontaria pessoal, embora específicos e explicitos na sua linha.
Em todos os seus filmes, e sobretudo neste Somewhere, Sofia Coppola tem a capacidade de intelectualizar a lamechisse e o aborrecimento a um nível que não só os tornam suportáveis, como profundamente apreciáveis. Em contrapartida, transforma-se numa visão incompreensível e quase abstracta para os mais leigos...


haters gonna hate