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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Footnotes in Gaza

O jornalismo, habitualmente preso aos formatos dos media tradicionais, descobriu uma nova área de expressão, com o reconhecido e aclamado repórter americano Joe Sacco, num local à primeira vista bastante improvável: a banda desenhada.

A sua mais recente publicação, Footnotes in Gaza, é provavelmente o seu melhor e mais reconhecido trabalho até presente (falo apenas por criticas alheias. Pessoalmente é o único livro dele que li), e é de facto algo de notável! Tanto em execução, como em alcance e ambição.

O objectivo a que Joe Sacco se comprometeu pra este Footnotes in Gaza foi o de documentar e reportar o massacre de civis palestinianos pelas tropas israelitas em 1956. Mais especificamente um episódio que ocorreu na cidade de Khan Younis (Faixa de Gaza) e que terá vitimado pelo menos 111 civis palestinianos. Autentico parêntesis esquecido na Historia, e na longa e brutal história de ocupação e opressão Israelita na Palestina (nao, nao vou fingir uma postura neutra, nem nunca o fiz em relação a isto), este episódio é, tal como o titulo indica, uma nota esquecida, entre tantas outras.
Criando sempre paralelismos com eventos mais recentes e presentes, Joe Sacco vai nos conduzindo através das memórias daqueles que viveram na primeira pessoa aqueles fatídicos dias da década de cinquenta. Entrevistando todas as pessoas que consegue encontrar, na Faixa de Gaza, que ainda se recordem daqueles tempos, descortina-se uma história terrivelmente real que encontra a sua espinha dorsal de veracidade e factualidade no padrão e numero considerável de memórias e testemunhos semelhantes existentes. O autor é rigoroso e constante ao filtrar a informação que recolhe, e deixa bem claro ao leitor (em diversas ocasiões) que memórias com já meio século de existência não são a mais segura e confortável das bases de analise para um tema tão sério e que tantas vidas implicou e implica. Mas, lá está, com tanta gente a recordar o mesmo e com tamanha precisão, torna-se impossível negar o que realmente aconteceu, e através da memória colectiva forma-se assim um preciosíssimo documento histórico que se pode considerar, à falta de melhor alternativa, bastante rigoroso e uma referencia na matéria!

Como disse, Joe Sacco vai relatando também vários acontecimentos actuais que forçosamente se intrometem na sua recolha de testemunhos e informações dum passado já relativamente distante. As interrupções mais frequentes e comuns devem-se à constante e aparentemente aleatória demolição de casas civis palestinianas junto ás fronteiras com os colonatos judaicos. Os bulldozers israelitas tiveram uma carga de trabalho particularmente forçada na primeira metade da ultima década (período em que Joe Sacco andou a recolher a informação para o livro), destruindo de forma indiscriminada, e sem aviso prévio, a residência de inúmeros refugiados palestinianos. Isto aconteceu inclusive a testemunhas dos acontecimentos de 1956 enquanto Joe Sacco estava em contacto com elas. Tudo isto está magnificamente transmitido e retratado nas vinhetas de Footnotes in Gaza, num rigoroso e pertinente estilo jornalístico.

Muito mais que uma investigação a um pequeno e distante (mas trágico e brutal) período de há cinquenta anos atrás, Footnotes in Gaza funciona também (e sobretudo) como um excelente guia pedagógico sobre toda a conjuntura do Estado de Israel, da sua criação, da sua ocupação da Palestina, da expulsão forçada (passe a redundância) dos seus residentes, e em particular do opressivo e violento controlo sobre a Faixa de Gaza e seus refugiados. Entre os vários episódios relatados, encontramos por exemplo, os massacres (crimes de guerra por condenar) ordenados e cometidos pelo general e ex-Primeiro Ministro Israelita Ariel Sharon contra as populações civis nos anos 50 - autênticos ataques de milícias que visavam sobretudo matar o maior numero de mulheres e crianças árabes para espalhar o medo e desmobilizar a resistência palestiniana.

Tudo isto representado com uma ilustração muito boa e expressiva, num misto de "cartoonismo" e realismo, e um ritmo e narrativa que nos prende ás páginas e nos faz ler até ao fim a toda a velocidade, mesmo que por vezes o peso daquilo que estamos a ler se apresente esmagador e revoltantemente chocante.

A única queixa que posso tecer a este Footnotes in Gaza é a ausência de suficientes testemunhos do lado Israelita. Existem alguns, de ex-soldados do exercito sionista, mas no geral, quase todo o livro se dedica a ouvir e relatar o lado palestiniano. O que neste caso, muito sinceramente, não mancha a veracidade dos acontecimentos e do objecto em estudo - contra factos não há argumentos. Ainda assim é pena não se vislumbrar melhor a opinião israelita em relação a isto tudo...seria sem duvida interessante. Duma maneira semelhante em que seria interessante existirem mais testemunhos e investigação ao (e de) lado Nazi da Segunda Guerra Mundial...

Escusado será dizer, obra indispensável para qualquer pessoa minimamente interessada no assunto. E parto do principio que só não se interessa pelo assunto quem não viver neste planeta.

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