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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Black Swan

Em várias momentos pensei que poderia estar na presença de um novo clássico do mesmo calibre de Amadeus, mas afinal, não é nada disso. Comecemos pelo positivo...

Black Swan é muito visceral! Domina por completo, do principio ao fim, essa sensação de pura visceralidade cortante. Explicita e implicitamente, existe em quase todas as cenas um sentimento, um pujar, constante e crescente de tensão, de inquietude e nervosismo que vão transportando a acção. Isto acaba por ser uma faca de dois gumes, pois no final de contas a ameaça nao se concretiza, e esta bolha de violencia e suspense que se vai enchendo nunca chega a rebentar verdadeiramente. Mas já lá irei...

Tecnicamente Black Swan é muito interessante. A estética é clara e muito coerente - a dicotomia que pretende representar (através de cores, mas não só) é evidente e muito bem conseguida. Está lá, em cada plano, mas nunca nos é atirada à cara nem nunca se mostra forçada. A presença constante de espelhos em praticamente todas as cenas funciona também muito bem, não sendo apenas um pormenor tipo gimmick, mas sim uma poderosa ferramenta que ajuda a transmitir e traduzir vários simbolismos presentes mas também como um próprio utensílio cinematográfico que permite expandir (ou estreitar) determinadas cenas.

As interpretações, em geral, sao boas. Natalie Portman está muito bem. Percebe-se perfeitamente o enorme trabalho e dedicação que terá sido preciso para encarnar esta personagem. Ainda assim, ela está muito bem mas nunca realmente apaixona o espectador, quanto a mim. É o que eu chamo uma interpretação tecnicamente muito boa, mas com pouco sabor (o que é curioso/ironico tendo em conta a personagem).
Kunis é irritante! Continuo a não gostar da actriz e acho que ela só consegue distrair pelos piores motivos. Sempre que surge em cena há aquele sentimento de "ooh pronto lá vem ela...". Seja a interpretar personagens boas ou maléficas (no caso de Black Swan, nem é uma coisa nem outra no fundo), para mim Kunis é sempre, e só, irritante. E nao é aquele irritante de "epá nao curto esta gaja!", nao. É mais aquele irritante de "epá esta gaja nao está aqui a fazer nada!". Nao a quero nos "meus" filmes!

Ok, mas agora explicar o que, na minha opinião, falha neste Black Swan e fez com que se tornasse numa desilusao para mim (tinha expectativas elevadissimas antes de ir ver, o que também nao costuma ser muito saudavel, como atitude).

O bailado Lago dos Cisnes é o centro nevrálgico do filme, da sua acção. E imediatamente se percebe o paralelo entre o "conto" clássico e a vida das personagens. Da mesma forma, adivinha-se um final trágico e muito dramático! Isto não é um spoiler, é puro e simplesmente uma evidencia pra qualquer pessoa que comece a ver o filme.
Ora o filme prepara...desenvolve muito bem um crescendo, esse tal efervescer de que falava mais acima, que ameaça, aparentemente, um espectular final. E não é que a qualidade de um filme esteja dependente do seu final (já varias vezes o disse que odeio quando as pessoas julgam um filme só pelo final. Isso é a atitude mais parola possivel.), mas no caso de Black Swan falta, de facto, um final que complete devidamente e faça justiça ao filme. Isto é, obviamente, muito subjectivo e trata-se apenas da minha opinião, mas eu esperava algo de grandioso, um culminar espectacular que provocasse em mim algum tipo de forte reacção. Nao acontece. Pelo contrario, o filme deixou-me com uma tremenda sensação de indiferença. A desilusão foi total, e fiquei frustrado por não se ter dado o salto para o nivel seguinte. Black Swan merecia mais coragem, mais força e ousadia.
O outro grande problema é a falta de exposição. Existe demasiada abertura conceptual e narrativa, mas o filme é demasiado curto. Black Swan poderia perfeitamente funcionar como um filme de duas horas e meia ou três, com mais exposição das personagens, com mais tempo para cenas de espectáculo e de bailado, mais tempo para pormenores e observações...e sobretudo mais tempo para o ultimo acto, que começa e acaba num piscar de olho. Enfim, falta-lhe tudo o que fez de Amadeus um tremendo e incontestável clássico. Faltou-lhe a ousadia para rasgar com as convenções do cinema comercial (a vários, níveis, desde casting, sonoplastia, edição, etc) para poder criar algo de realmente novo e poderoso! A frustração surge, sobretudo, porque todo o marketing à volta do filme aponta (manipula e simula) nessa direcção, e leva a crer que Black Swan seria um filme realmente diferente e com mais alcance. Mas não é. E custa aceitar isso porque, apesar de tudo, está aqui muita coisa bem feita, o potencial está cá, é enorme, mas Anorofsky não o desenvolveu.

Perceba-se no entanto que gostei de ver o filme. Desiludiu-me sobretudo pelo final fraquinho. Mas de maneira nenhuma me custou estar sentado no cinema a ver Black Swan. É daqueles filmes bons/bonzinhos que nos deixam muito desapontados apenas porque não cumprem com as elevadas expectativas que levamos pra dentro da sala. Não que isso os redima...e não redime Black Swan.

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